Os gregos, os brasileiros e os políticos

A Grécia do século V antes de Cristo era uma sociedade em decadência, descrente de si própria e de seus valores. Havia um clima de caos econômico, político e social; um ambiente de desânimo. Aí surgiram os sofistas. Eram uma linha, uma escola filosófica, um modo de encarar a vida e a realidade. Para eles, não havia verdade absoluta, não estavam preocupados com a verdade, com valores morais, com o interesse comum. 

Naquela sociedade em crise, os sofistas pensavam assim: o importante é usar bem as palavras, manejar bem as idéias, utilizar bem a comunicação, não para procurar e defender a verdade, mas para defender os próprios interesses. A linguagem não era usada por eles para comunicar a verdade, para criar comunhão entre as pessoas, mas para adquirir poder, sucesso, fama, riquezas. Os sofistas, sem dúvida, foram o fruto de uma sociedade que atravessava uma grave crise de valores, de ideais e de propósitos.

Pensando nos nossos candidatos aos cargos eletivos, como não recordar os sofistas? Quando assistimos aos debates, quando escutamos as promessas, quando tomamos conhecimento dos programas, percebemos que grande parte daquilo que nossos caríssimos candidatos dizem não passa de sofismas (= modo de falar e usar as palavras próprio dos sofistas). 

Parece que hoje o bom candidato não é o mais responsável, o mais sério no manejo da coisa pública, o que é mais ético e realista, mas o que mais maneja as palavras, pintando a realidade com cores mais negras que as reais e depois, com arte de ilusionista, prometendo o que não terá nunca condições de cumprir. Por isso, tenhamos cuidado com o discurso dos senhores candidatos! 

É fácil criticar e prometer, prometer, prometer... Hoje, o sofisma, além do manejo demagógico das palavras, vem acompanhado do uso abusivo da imagem: belos programas de TV, belas fotografias, carregadas de maquiagem... e o candidato ideal aparece... tão distante do candidato real, de carne, ossos, intenções e maracutaias!

Então, se as palavras não valem muito numa campanha e as imagens são fictícias, que critérios poderíamos usar para descobrir quem é quem e quais as intenções reais de cada um? Há quatro critérios que ajudam muito a desmascarar o candidato. Desmascarar porque tira a máscara das palavras ilusórias e das imagens maquiadas. Ei-los:

1. A primeira coisa e a mais importante a ser observada é o passado do candidato. Ele é um candidato novo? Pois bem: de onde ele vem? Já tem algum trabalho realizado em prol da comunidade, participa de algum movimento, alguma entidade que trabalhe para o bem comum? Na sua profissão, como se comportou: foi competente, responsável, honesto? Seus conhecidos e colegas, o que dizem dele? Se ele já ocupou outros cargos, é ainda mais fácil avaliar o passado: ele honrou os mandatos anteriores? Como se portou? Saiu com fama de honesto ou de corrupto? Enriqueceu no exercício do seu mandato? O que ele fez de concreto: que programas em benefício do povo? Promoveu concursos públicos ou, ao invés, facilitou o empreguismo, que degenera os cofres públicos e traz a miséria para todos? Cumpriu durante o mandato as promessas feitas durante a campanha?

2. Um outro critério importantíssimo: quem são os componentes do grupo político daquele candidato. Aqui, vale o provérbio: “Dize-me com quem andas e dir-te-ei quem és”... Seus companheiros políticos são pessoas honradas, políticos que gozam de credibilidade, partidos que têm reais compromissos com o bem comum? Ou, ao invés, o grupo político parece mais uma corja? Afinal, recordemos que ninguém governa sozinho: meu grupo político fará parte do meu modo de exercer meu mandato!

3. Mais um critério importante: o modo que o candidato tem de fazer campanha. Está gastando demais? Se gasta muito, irá, depois, roubar os cofres públicos para repor o dinheiro esbanjado! Está comprando votos, dando dinheiro, prometendo empregos? Então, é corrupto já na campanha; imaginem quando chegar ao poder! Usa o nome de Deus ou da Igreja? Usa a fé do povo? Anda com a Bíblia debaixo do braço? Tudo isso, além de profanar o nome de Deus, de sua Igreja e de seus santos, é pura demagogia! É prova de leviandade do candidato – ele não merece o voto de uma pessoa séria e inteligente e que ame a Deus!

4. Quando ele promete, explica direitinho de onde vai tirar o dinheiro para cumprir as promessas? Porque se não explica, não vai cumprir nada: está prometendo o que não pode cumprir!

Então, não é impossível fazer uma boa avaliação dos candidatos. Basta que a gente procure realmente refletir com responsabilidade. Para um cristão realmente comprometido com o Evangelho, esta atitude é indispensável, pois a felicidade de muitos – sobretudo dos mais fracos – depende do meu voto. Ainda para um católico verdadeiro e consciente de sua fé e responsabilidade cidadã, é imoral e pecaminoso votar num candidato ao Senado ou à Câmara Federal que apóie a lei que permite o aborto ou a que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Do meu voto e do seu voto dependem também o inferno de toda uma sociedade (basta recordar um pouquinho os vários exemplos da nossa história).

E que ninguém, que tenha um grama de inteligência, diga que todos os políticos são iguais. Isso é desculpa esfarrapada para votar no pior! Há políticos de todos os modos, de todas as práticas e de todo o tipo de comportamento. É nosso dever de cristãos e de cidadãos procurar votar de modo consciente e esclarecido, pensando unicamente no bem comum... afinal, um voto pode nos mandar para o inferno: aqui, por quatro anos e, após a morte, por toda a eternidade!

Dom Henrique Soares da Costa é Bispo auxiliar da Arquidiocese de Aracaju, em Sergipe.
02 de outubro de 2010.