No momento delicado em que estamos vivendo em nosso país, surge a dúvida entre os católicos: a Igreja pode “se meter” em política? Já ouvi e recibi mensagens com as mais diversas opiniões: “é uma pena que o padre esteja falando de política, fale-nos do Evangelho” ou “obrigado padre, por nos esclarecer; pena que a Igreja ainda fale tão pouco!”
É verdade que a política é um campo difícil de se andar, por isso, a Igreja segue os seguintes passos:
- Não fazer política partidária. Não compete à Igreja, como todo, ter um partido próprio ou um candidato próprio.
- Incentivar os fiéis a agirem no campo político, levando os valores do Evangelho. Não tem como fugir: precisamos de governantes, logo, que os cristãos dêem sua contribuição, levando os valores do Evangelho para a sociedade pelo serviço público.
- Denunciar os abusos, desmandos e perigos que governantes podem trazer sobre o povo.
Este último ponto precisa ser bem entendido: sobre a questão de fazer ou não uma calçada em uma rua, não cabe à Igreja se manifestar, obviamente, mas em questões graves, ou seja, que diretamente atacam o valor da vida, dom mais precioso de Deus, cabe sim à Igreja se manifestar.
Vejamos as palavras de João Paulo II na encíclica Evangelium vitae:
"O aborto e a eutanásia são, portanto, crimes que nenhuma lei humana pode pretender legitimar. Leis deste tipo não só não criam obrigação alguma para a consciência, como, ao contrário, geram uma grave e precisa obrigação de opor-se a elas através da objecção de consciência. Desde os princípios da Igreja, a pregação apostólica inculcou nos cristãos o dever de obedecer às autoridades públicas legitimamente constituídas (cf. Carta de São Paulo aos Romanos 13, 1-7; 1 Carta de São Pedro 2, 13-14), mas, ao mesmo tempo, advertiu firmemente que « importa mais obedecer a Deus do que aos homens » (Atos dos Apóstolos 5, 29). Já no Antigo Testamento e a propósito de ameaças contra a vida, encontramos um significativo exemplo de resistência à ordem injusta da autoridade. (...) É precisamente da obediência a Deus — o único a Quem se deve aquele temor que significa reconhecimento da sua soberania absoluta — que nascem a força e a coragem de resistir às leis injustas dos homens. É a força e a coragem de quem está disposto mesmo a ir para a prisão ou a ser morto à espada, na certeza de que nisto « está a paciência e a fé dos Santos» (Livro do Apocalipse 13, 10). Portanto, no caso de uma lei intrinsecamente injusta, como aquela que admite o aborto ou a eutanásia, nunca é lícito conformar-se com ela, « nem participar numa campanha de opinião a favor de uma lei de tal natureza, nem dar-lhe a aprovação com o próprio voto ".
É uma pena que alguns cristãos não vejam que defender a vida é um obrigação fundamental, que não pode ser relativizada. Sendo que um governo ou candidato cujo programa oficialmente defende o aborto (e outras formas de morte e exploração da pessoa) deve ser denunciado.
Há ainda uma argumentação ingênua por parte de alguns, ou seja, “se todo cristão viver o Evangelho, mesmo que haja leis contrárias, não haverá o aborto, etc”. Isso é verdade. Todavia, esquecem, os que assim pensam, que o povo é influenciado, sendo que uma lei injustiça, ao passar do tempo, cria nas consciências a falsa impressão que é "normal", levando, por fim, à fraqueza de consciência. Vamos a um exemplo claro:
- Nos EUA o aborto foi aprovado nos anos 70 a partir de um suposto caso do estupro (que depois a "vítima" confessou que era mentira). Ora, dizia-se então, o aborto será somente para os casos "graves". Sabe o que está acontecendo agora: banalizou! Por qualquer motivo (até por indisposição) uma jovem vai fazer aborto.
Outro erro: omitirmos a profecia. Jesus foi muito claro: "Ide e pregai o Evangelho". Veja o exemplo do próprio Senhor: Ele denunciava os erros, assim como os profetas antes Dele fizeram.Claro que, no fim, fica a consciência de cada um em seguir ou não, mas só vai ter possibilidade de refletir quem for avisado. A Igreja não pode deixar de ser profeta!!!
Além de João Paulo II, basta ver o que Bento XVI está dizendo na Inglaterra nestes dias... Aliás, por falar em Bento XVI, um argumento central dele é: a fé não deve ser guardada na sacristia, mas deve fazer parte do ambiente político e social.
Quanto ao voto, no fim, é claro que fica a consciência de cada um em quem vai votar, mas, quando a questão é grave, compete sim à Igreja alertar o povo de Deus. Penso que já erramos muito quando faltou este alerta no tempo da ascensão de Hitler...
Por fim, é uma pena as opiniões contrárias, em questões centrais da fé e da moral, dentro da Igreja. São Paulo é claro:
“Insisto convosco, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo: tende os mesmos sentimentos; não haja divisões entre vós; sede todos unidos no mesmo sentir e no mesmo pensar. Porque fui informado pela família de Cloé de que há discussões entre vós” (1 Carta de São Paulo aos Coríntios 1, 10ss).
Há pontos centrais da fé e da moral que não dá pra deixar de defender. Mas o que dizer, quando há padres negando a presença Real de Jesus na Eucaristia? Quando há setores da Igreja que dizem que o aborto é um meio de libertação da mulher...?
Resta-nos rezar e denunciar.
Pe. Silvio Rodrigues Roberto é sacerdote da Congregação dos Marianos da Imaculada e Diretor do Apostolado da Divina Misericórdia.
Curitiba, 17 de setembro de 2010.