Uma pesquisa feita na França sobre os danos físicos e psicológicos decorrentes do aborto provocado e que constituiu um serviço indispensável para a cultura da vida convém ser divulgada e analisada nesse momento histórico brasileiro. Considerou-se nela tanto mulheres que fizeram o aborto sem total conhecimento da ação realizada quanto aquelas que voluntária e conscientemente decidiram recorrer à interrupção da gravidez.
Um dado complementar a essa pesquisa francesa veio dos Estados Unidos (Califórnia), onde foram estudadas 173.000 mulheres que viveram a experiência do aborto, resulta muito significativo:
- nos dois anos seguintes à experiência do aborto, a taxa de mortalidade dessas mulheres, seja por causas duvidosas, seja por causas inespecíficas, é muito alta;
- nos oito anos seguintes ao aborto há um acréscimo de 44% nos sintomas físicos e psicológicos que caracterizam a síndrome pós-aborto.
- as mulheres que recorreram ao aborto têm um risco 63% mais elevado do que as demais de padecerem de distúrbios psiquiátricos.
- 80% das mulheres que recorrem a médicos no primeiro ano após o aborto o fazem movidas por sequelas psicológicas dessa decisão.
A pesquisa francesa mostra algumas características, dados e consequências do aborto na mulher:
- Perfurações uterinas; lacerações do colo uterino; implante anormal da placenta; inflamações pélvicas e da mucosa uterina; aumento de câncer do colo uterino, do ovário, do fígado, das mamas e do pulmão; gravidezes extra-ulterinas; gravidezes com fetos malformados.
- Sentimentos de impotência, de amargura, de tristeza, de medo, etc, e de perda do autocontrole emocional e vital.
Outro dado alarmente é o suicídio e aborto, e vem fornecido pelo governo da Finlândia (1997): 60% das mulheres que abortaram tiveram pensamentos suicidas; 28% tentaram o suicídio; 34,7% das 100 mil mulheres que abortaram no país se suicidaram; no primeiro ano pós-aborto a taxa de suicídio triplicou-se em relação a outras mulheres e foi sete vezes maior do que aquelas que levaram a gravidez a termo.
A relação entre aborto e divórcio é outro aspecto que também apresenta dados significativos. Casais franceses não unidos em matrimônio se separaram em torno de 60% - 70% após viverem uma experiência abortiva no relacionamento, enquanto que os unidos em matrimônio sofreram momentos de ruptura da relação porque a mulher culpava o marido pelo seu estado psicológico doentio. Trata-se aqui também de prevenção da saúde da família e dos relacionamentos humanos e sociais.
Com relação a complicações psicológicas pós-aborto, um estudo sociológico feito nos Estados Unidos relatou que a presença desses efeitos deve-se ao fato de que 25% das mulheres sabiam que o embrião era uma pessoa ou que era uma vida humana, 25% tinham dúvida que fosse uma vida, 35% tinham ideias confusas e 15% afirmavam que o feto não era um ser humano. Nota-se aqui a alta porcentagem de mulheres que decidiram pelo aborto em momentos de falta de apoio e de acompanhamento humano nas horas incertas.
As complicações psicológicas estão presentes não só em mulheres com formação religiosa cristã-judaica, mas também em mulheres que vivem em culturas religiosas islâmicas, budistas, etc., o que confirma a tese de que a oposição ao aborto não é gerada apenas por razões católicas, mas também para defender a dignidade da mulher, seja qual for a sua formação.
Há ainda a verificação fáctica de que quando uma mulher que abortou engravida novamente, ela tem plena consciência de que este seu novo filho nunca substituirá o anteriormente rejeitado e morto e que as perdas psicológicas decorrentes do aborto não ficam supridas pela atual maternidade vivenciada.
Infelizmente, o século XX vai ficar na história como o período que mudou o conceito de aborto ao passar da noção de crime ao conceito de “direito da mulher”, do ordenamento jurídico protetor da cultura da vida humana para o conceito de lei protetora da cultura da morte, da definição de gravidez como sinal de saúde física para o conceito de gravidez indesejada, da aplicação de medidas terapêuticas visando à saúde para o conceito de “procedimentos terapêuticos” visando à morte (“aborto terapêutico”).
O século XXI iniciou-se ainda com essa inércia da cultura da morte promovida por governos ditos democráticos e por organismos não-governamentais financiados por instituições e fundações que se infiltraram na ONU, nos congressos e parlamentos nacionais.
Entretanto, a resposta do povo brasileiro nessa primeira década do Terceiro Milênio, demonstrada pelo alto índice de rejeição (80%) do aborto em qualquer período da gravidez e feito de qualquer forma, seja cirúrgica, seja química (pílula do dia seguinte), permite visualizar, com esperança e alegria, o início da construção de uma autêntica cultura da vida e da tão desejada civilização do Amor, que respeitará o ser humano em todos os momentos da sua existência terrena.
Vê-se que, tanto pelos dados de pesquisas americanas e francesas quanto pelos dados de pesquisa de opinião pública no Brasil, jamais seria justificável a descriminalização do aborto, nem por parte do futuro governo e Congresso Nacional, nem por parte do Supremo Tribunal Federal, com a pretensa alegação de que ele é uma questão de saúde pública ou é um direito à saúde sexual-reprodutiva da mulher.
Quem realmente é a favor da vida, a favor da presença da mulher na sociedade brasileira, a favor da família e, principalmente, a favor das crianças brasileiras, é pessoal e publicamente a favor do embrião, a favor do feto, mesmo que ele tenha sido concebido contra a vontade da mulher (estupro), ou fora do tempo esperado (gravidez indesejada), ou sem o padrão de perfeição desejado (malformações congênitas).
Dom Antônio Augusto Dias Duarte é Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro, 13 de agosto de 2010.
